Selic cai, mas inflação não dá trégua, e Fed pode subir juros ainda em 2026

O mês de junho foi marcado por importantes divulgações econômicas e por decisões relevantes dos principais bancos centrais do mundo. No Brasil, os indicadores reforçaram que o processo de desinflação continua em andamento, mas ainda cercado por desafios. Já a economia americana segue demonstrando resiliência, sustentando uma postura cautelosa do Federal Reserve e mantendo o ambiente global mais restritivo para os ativos de risco.

Brasil: atividade resiliente e inflação ainda exigem cautela

No cenário doméstico, os indicadores seguiram mostrando uma economia mais resiliente do que o esperado, mesmo diante do elevado nível das taxas de juros.

O principal destaque foi a divulgação do IPCA de maio, que registrou alta de 0,58%, acima das expectativas de mercado, elevando a inflação acumulada em 12 meses para 4,7%. A surpresa esteve concentrada principalmente nos preços dos bens industriais, ainda refletindo os efeitos indiretos do choque recente do petróleo. Em contrapartida, a inflação de serviços continuou apresentando sinais graduais de desaceleração.

Os indicadores de atividade também continuaram a surpreender positivamente. O volume do setor de serviços avançou 1,2% em abril, acima das expectativas, reforçando a percepção de que a economia iniciou o segundo trimestre em ritmo mais forte. Apesar disso, alguns indicadores antecedentes sugerem uma desaceleração gradual da atividade ao longo dos próximos meses, em resposta aos efeitos defasados da política monetária.

Na segunda metade do mês, o IPCA-15 de junho trouxe um resultado mais benigno, avançando 0,41%, abaixo da expectativa do mercado (0,44%). A composição mostrou desaceleração dos preços administrados, com destaque para energia elétrica e gasolina, além da queda dos seguros voluntários de veículos. Por outro lado, os bens duráveis voltaram a pressionar o índice, especialmente os automóveis novos, enquanto a inflação de serviços permanece resiliente, refletindo um mercado de trabalho aquecido e uma economia que continua operando acima do esperado.

Embora os dados mais recentes apontem uma melhora na margem, a leitura predominante continua sendo de que o processo de convergência da inflação para a meta ainda deverá ocorrer de forma gradual.

Política monetária: Banco Central mantém espaço para continuidade do ciclo

A reunião de junho do Copom confirmou a expectativa do mercado ao reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. Mais relevante do que a decisão foi a forma como o Banco Central passou a comunicar sua estratégia para os próximos trimestres.

Mesmo reconhecendo a deterioração adicional das expectativas de inflação, a autoridade monetária optou por alongar novamente o horizonte relevante da política monetária, sustentando a avaliação de que a inflação poderá convergir para a meta apenas no início de 2028. Com isso, preserva espaço para a continuidade do ciclo de flexibilização sem exigir um aperto monetário adicional no curto prazo.

A ata do Copom trouxe uma mensagem particularmente importante ao reconhecer a existência de uma assimetria altista para a inflação. Ainda assim, o Comitê avaliou que uma trajetória de juros suficientemente restritiva para trazer a inflação à meta já no quarto trimestre de 2027 exigiria uma política monetária de intensidade desproporcional, produzindo volatilidade excessiva sobre os ativos financeiros e sobre a própria atividade econômica. Na prática, a autoridade monetária sinaliza preferência por uma convergência mais gradual da inflação, evitando um custo econômico considerado elevado.

Outro ponto relevante foi a indicação de que não existe, neste momento, apoio dentro do Comitê para interromper definitivamente o ciclo de flexibilização monetária. A discussão passou a considerar uma estratégia de pausas e retomadas, permitindo que futuras reduções da Selic ocorram de acordo com a evolução da inflação, das expectativas e do nível de atividade. Após a divulgação da ata, aumentou a percepção de mercado de mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, embora já exista debate sobre uma possível pausa nas reuniões seguintes.

Esse conjunto de mensagens reforça que, embora o ciclo de cortes de juros permaneça em andamento, sua continuidade dependerá cada vez mais da evolução dos indicadores econômicos e da capacidade de reancoragem das expectativas de inflação.

EUA: mercado de trabalho segue forte e Fed reforça postura cautelosa

Nos Estados Unidos, os indicadores seguem mostrando uma economia resiliente, reduzindo as expectativas de uma flexibilização mais rápida da política monetária.

O principal destaque foi o mercado de trabalho. O relatório de emprego (Payroll) mostrou a criação de 172 mil vagas em maio, praticamente o dobro das expectativas de mercado, que apontavam para cerca de 88 mil vagas. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,3%, enquanto os salários cresceram 0,3% no mês e 3,4% em 12 meses, evidenciando um mercado de trabalho ainda bastante aquecido.

Outros indicadores corroboram essa leitura. O ISM Industrial atingiu 54,0 pontos, enquanto o ISM de Serviços alcançou 54,5 pontos, ambos acima das expectativas e em território expansionista. Além disso, o relatório JOLTS mostrou aumento das vagas em aberto para 7,62 milhões, indicando que a demanda por mão de obra continua robusta.

No campo da inflação, embora o núcleo do CPI tenha surpreendido positivamente ao registrar alta de apenas 0,21% em maio, as medidas de inflação acompanhadas pelo Federal Reserve continuam sugerindo que o processo de desinflação ocorre de maneira gradual. A combinação entre mercado de trabalho resiliente, atividade econômica consistente e inflação ainda acima do objetivo mantém a autoridade monetária dependente da evolução dos próximos indicadores antes de promover mudanças mais relevantes em sua estratégia de juros.

A reunião mais recente do Federal Reserve reforçou essa postura. Além de manter a taxa básica de juros inalterada, a instituição adotou uma comunicação firme, reduzindo o uso de sinalizações antecipadas (forward guidance) e elevando as projeções de juros para os próximos anos. Metade dos membros do comitê passou a projetar ao menos uma nova alta de juros ainda em 2026. Como consequência, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano voltaram a subir, o dólar ganhou força frente às principais moedas e o mercado passou a incorporar um ambiente de juros elevados por um período mais prolongado, reduzindo a atratividade relativa dos ativos de países emergentes.

Cenário político internacional

As negociações entre Estados Unidos e Irã continuaram sendo acompanhadas de perto pelos mercados. Embora tenham surgido sinalizações mais conciliatórias ao longo do mês, as incertezas em torno do Oriente Médio permanecem influenciando os preços da energia e o sentimento global dos investidores. Ao mesmo tempo, novas tarifas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos voltaram a elevar as preocupações em relação ao comércio internacional.

Na América Latina, a eleição presidencial na Colômbia trouxe um elemento adicional para o cenário regional. O resultado foi interpretado pelo mercado como uma possível mudança na condução da política econômica, reforçando expectativas de maior disciplina fiscal, fortalecimento institucional, segurança jurídica e incentivo ao investimento privado.

O episódio ilustra uma característica dos mercados financeiros: mudanças nas expectativas costumam ser incorporadas aos preços dos ativos, muitas vezes antes da implementação efetiva das políticas econômicas. Nesse contexto, a América Latina voltou a ganhar espaço nas discussões dos investidores internacionais, que seguem atentos aos desdobramentos políticos e à capacidade dos governos da região em combinar estabilidade macroeconômica, responsabilidade fiscal e crescimento econômico sustentado.

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